Setor público acumulou rombo no ano passado, impulsionado por gastos obrigatórios e desempenho fraco de estatais, com a dívida bruta ultrapassando 78% do PIB

As contas públicas do Brasil fecharam o ano de 2025 com um déficit primário de R$ 55,021 bilhões, indicando que o setor público gastou mais do que arrecadou em um ano marcado por pressões sobre receitas e despesas e por um desempenho financeiro adverso de empresas estatais federais, especialmente os Correios. O resultado foi divulgado nesta sexta-feira, 30, em relatório do Banco Central que consolida os números de dezembro e aponta um cenário fiscal mais desafiador para as próximas gestões.
O déficit primário, que desconsidera os juros da dívida pública, representa cerca de 0,43% do Produto Interno Bruto (PIB) e configura uma piora em relação ao resultado de 2024, quando o rombo havia sido de R$ 47,553 bilhões. Entre os principais responsáveis pelo déficit está o Governo Central, que acumulou R$ 58,687 bilhões em resultado negativo no ano anterior, pressionado pelo crescimento de gastos obrigatórios, como Previdência Social e o Benefício de Prestação Continuada (BPC), que superaram o ritmo das receitas.
O desempenho das empresas estatais federais também contribuiu para o resultado negativo: essas unidades fecharam 2025 com um déficit de cerca de R$ 5,9 bilhões, reflexo da deterioração financeira em companhias como os Correios, que enfrentam crise operacional e perdas acumuladas no ano.
Estados e municípios conseguiram pelo menos equilibrar parte das contas, com um superávit primário de R$ 9,537 bilhões em 2025, maior do que o observado no ano anterior e que ajudou a mitigar o déficit geral nas contas consolidadas.
O resultado fiscal reflete também a dificuldade em conter a evolução da dívida pública. Dados do Tesouro Nacional mostram que a dívida bruta do governo geral — que inclui União, INSS, Estados e Municípios — alcançou cerca de 78,7% do PIB, equivalente a mais de R$ 10 trilhões, em 2025. Esse percentual representa um aumento em relação ao ano anterior e ilustra a tendência de crescimento do endividamento público ao longo da década.
Especialistas em economia alertam que a sequência de déficits, combinada com um arcabouço fiscal que ainda não conseguiu estabilizar a trajetória da dívida, pode limitar a capacidade do país de responder a choques econômicos e reduzir margens de manobra para investimentos públicos. “Essa dívida continua crescendo. Temos uma situação em que o arcabouço fiscal não tem conseguido cumprir seu objetivo de estabilizar o crescimento da dívida, o que cria um cenário fiscal delicado para os próximos anos”, destaca o pesquisador Rafael Barros Barbosa, do FGV IBRE, em análises recentes sobre a trajetória das contas públicas.
Para conter a escalada da dívida e melhorar o equilíbrio das contas, economistas defendem medidas estruturais que envolvam contenção de gastos e reformas que tornem o gasto público mais sustentável no longo prazo. Entre as propostas estão a revisão de políticas de despesas obrigatórias e ajustes em processos de gestão de empresas estatais, tema que ganhou ainda mais relevância diante da crise vivida pelos Correios.
O resultado fiscal de 2025 reforça que o Brasil enfrenta um momento complexo nas contas públicas, com desafios que devem influenciar discussões sobre orçamento, prioridades de gastos e políticas fiscais nos próximos anos.











