Artigo de Opinião | Professor analisa os desafios enfrentados pela escola pública diante do avanço da intolerância e do preconceito no ambiente escolar

Por Prof. Sousa Filho
Mestre em Geografia pela UFCat.
Efetivo da Rede Estadual de Educação de Goiás desde dezembro de 2004.
Advogado OAB 78642.
A escola pública brasileira, historicamente desenhada para ser o espaço democrático deencontros, da ciência e da construção da cidadania, está sob assédio e uma tentativa de domínio. Quem acompanha o cotidiano da Educação Básica percebe que a sala de aula se tornou um território de disputas tensas, onde o bom–senso,frequentemente, cede lugar ao fundamentalismo e à agressividade. Ao observar a velocidade com que o preconceito se institucionaliza no chão da escola, a imagem de um “Brasilquistão” — um flerte com o anacronismo e o extremismo — deixa de ser mero exagero retórico para descrever a realidade de professores(as) e alunos(as) encurralados pela intolerância.
Afinal, a escola não é uma bolha isolada; ela é o microcosmo da sociedade. Se o macrocosmo social adoece, a sala de aula vai para a UTI.
Esse preconceito agora opera como um bloqueador do próprio processo de ensino-aprendizagem. O caso de uma aula — em que houve a exibição da canção intitulada “Plus rien ne m’étonne” (“Nada mais me surpreende”), lançada no álbum de mesmo nome pelo artista de reggae marfinense Tiken Jah Fakoly, cuja estrofe “Ils ont partagé l’Afrique”significa “Eles dividiram a África” — ilustra essa tragédia pedagógica. Já no início da apresentação, gritos de “macumba, é macumba” interromperam a aula por conta da imagem de um cantor negro com vestes tradicionais. A obra, que evoca um coro de centenas de vozes para denunciar os acordos de dominação de Nações Ricas sobre Nações pobres em uma abordagem sobre a Conferência de Berlim (1884-1885) e o retalhamento do continente africano, foi reduzida à demonização estética. O estudante, capturado pelo preconceito, torna-se incapaz de enxergar a geopolítica, a história ou a grandiosidade cultural ali expostas. O conhecimento científico e a arte internacional são interditados pela intolerância religiosa.
A gravidade desse cenário já não se restringe a episódios isolados de indisciplina; ela ganhou contornos de linchamento moral organizado. O recente caso investigado pela polícia em uma escola, onde um docente foi violentamente atacado em redes sociais e rotulado como “enviado do satanás” por abordar a cultura e as religiões de matriz africana, expõe a face mais perversa dessa engrenagem. Quando a prática pedagógica respaldada pela ciência e pela legislação é criminalizada por tribunais virtuais de fundamentalistas, a integridade física e psicológica do professor é colocada em risco imediato. Não se trata mais de debate de ideias, mas de táticas de terrorismo psicológico voltadas a banir a pluralidade do ambiente escolar.
Essa engrenagem de exclusão se sofistica quando percebemos que o próprio corpo docente e as gestões escolares naturalizam o apagamento da diversidade. Ação essa que, inclusive, vai contrariamente aos documentos oficiais que regem a cultura escolar como, por exemplo, a BNCC. É comum que eventos, reuniões pedagógicas e planejamentos coletivos — espaços essencialmente públicos e laicos — sejam iniciados com orações abertamente cristãs, sem que haja o mesmo espaço ou abertura para que docentes de outras fés professem suas crenças de igual modo. Ao transformar a liturgia de uma maioria religiosa em protocolo oficial do ambiente de trabalho, a escola viola o preceito constitucional da laicidade e valida, silenciosamente, o preconceito que finge combater. O professor que diverge desse consenso compulsório é empurrado para o isolamento, assistindo à conversão do espaço de debate científico em um confessionário excludente.
Na mesma esteira de retrocessos, assistimos à naturalização explícita do machismo estrutural entre os jovens. Frases absurdas como “mulher nasceu para arrumar a casa”, e “tem mulher que precisa apanhar” e “que pega mal para o homem dividir as tarefas domésticas” voltam a ecoar nos corredores, como se décadas de lutas por direitos pudessem ser apagadas pelo verniz do reacionarismo. Em uma assustadora inversão de valores, o absurdo se normaliza a ponto de alunas bradarem em sala de aula que são “a favor do machismo” e que “isso é bom”. Diante disso, a escola tenta exercer seu papel civilizatório mais nobre: questionar o preconceito e buscando transformar esse jeito de pensar por meio da conscientização. A resposta das famílias, contudo, é o confronto. Ao ser chamado pela coordenação, o pai vai à escola não para dialogar, mas para demarcar território, afirmando com orgulho que sua família pensa exatamente assim e que não aceitará ninguém tentando mudar essa mentalidade. O que esse pai não entende — ou se recusa categoricamente a entender — é que o machismo não é uma mera “opinião familiar”, mas uma engrenagem violenta que destrói vidas, perpetua a opressão e, historicamente, faz o mal que sempre fez.
Essa violência, inevitavelmente, escolhe o corpo docente como alvo. A homofobia explode quando pais procuram a direção para a retirada de seus filhos da escola sob o pretexto de que há um professor homossexual no corpo docente. A orientação sexual do profissional é instrumentalizada para deslegitimar sua autoridade humana e pedagógica. O mais cruel desse cenário é notar que, muitas vezes, o/a próprio/a filho/a vive seu processo de descoberta, sendo condenado ao silêncio e ao medo dentro de casa. Infelizmente, inclusive, desdobrando em ações de suicídio destes/as jovens, diante de falas de pais que preferem ver o/a filho/a morto a ter “sexualidade desviada”.
O ponto de inflexão mais alarmante, contudo, reside na reação das famílias. Ao serem chamados para responder pelas atitudes hostis dos/as filhos/as, muitos pais não apenas justificam a violência, mas a abraçam sob a insígnia de que são “conservadores”. Cria-se, no imaginário dessas famílias, a absurda tese de que o termo funciona como um excludente de ilicitude — um salvo-conduto político e moral que os autorizaria a praticar racismo, homofobia e injúria sem a necessidade de prestar contas à Justiça.
Afinal, é preciso dar o nome correto às coisas: ser conservador não pode significar a pretensão de conservar o feminicídio, conservar o machismo, conservar a violência doméstica para blindar taispreconceitos. O conservadorismo político e filosófico prevê a preservação de instituições e valores democráticos, e não a perpetuação de crimes tipificados pelo Código Penal. Usar essa identidade como biombo para chancelar a barbárie dentro do lar e tentar transferir essa violência para o ambiente escolar é uma distorção perversa. A liberdade de crença ou de opinião política termina exatamente onde começa a dignidade humana e o direito de o outro existir sem ser violado.
Se a intolerância delimita os lados desse front, a crueldade dita o vocabulário. A rotina escolar agora inclui a transformação de condições neurodivergentes em xingamento. Utilizar o termo “autista”, de forma pejorativa para ofender e desqualificar um colega, demonstra o esvaziamento absoluto da empatia e o quanto a engrenagem do preconceito é eficaz em fabricar munição para o bullying.
Esse ecossistema de hostilidade escalou o último degrau da barbárie: a violência física contra os/asprofessores/as, que deixou de ser um episódio isolado para se tornar rotina nos noticiários. O mais estarrecedor é notar que, ao serem chamados pela direção, muitos pais não apenas minimizam a agressão corporal, mas apoiam abertamente o comportamento dos/as filhos/as. Sob o manto hipócrita do “cidadão de bem”, essas famílias destilam um discurso de ódio contra a própria instituição escolar, bradando que a escola “não presta” e “não ensina nada que preste”. Trata-se de uma tentativa deliberada de deslegitimar o saber pedagógico, objetivando decretar a morte da razão, substituindo a ciência, a filosofia, a sociologia, a história, a geografia, enfim, os saberes escolarespela imposição dogmática de suas próprias leiturasenviesadas da Bíblia. Com gesto de leitura das Escrituras Sagradas marcado de equívocos teológicos e contextuais, produzindo, muitas vezes, leituras do texto bíblico a favor de justificativas para a violência e a barbárie. Quando o soco, o empurrão ou a ameaça física são chancelados pelos pais, em nome de uma suposta moralidade, a escola públicaou qualquer outra instituição pública deixa de ser um espaço de mediação, passando a operar sob o regime do terror.
Toda essa situação se torna ainda mais grave e alarmante quando olhamos para as entranhas da gestão pública. Como apontado recentemente em pronunciamento no Supremo Tribunal Federal (STF), a estrutura governamental mantém, intencionalmente, cerca de metade dos professores da Educação Básica de todo o país sob o regime de contratos temporários. Embora a análise primeira seja por questões econômicas visando apenas uma redução de custos e a sonegação de direitos básicos (como o recebimento por titularidade), o impacto pedagógico é devastador: o/a professor/atemporário/a fica inibido. Sob o fantasma da demissão sumária, o/a docente perde as garantias para exercer plenamente sua liberdade de cátedra. Sem a estabilidade do concurso público, que garante, minimamente, os direitos de exercício das atividades pedagógicas, debater temas históricos e científicos sensíveis vira um risco de desempregopara esse/a docente. O silenciamento é institucionalizado pela caneta do Estado.
O que vemos hoje, no ambiente escolar, é o sintoma de um país que flerta com o obscurantismo. Diante disso, exercer a docência no Brasil ultrapassa o ato de lecionar: tornou-se uma trincheira de resistência política, civilizatória e jurídica. Não há neutralidade possível quando o crime se disfarça de opinião e o Estado precariza quem deveria mediar o conflito. Para que a escola não sucumba em definitivo, é urgente que as direções, a gestão pública e o aparato legal deem respaldo ao professor/as,garantindo estabilidade trabalhista e fazendo valer o rigor da lei, sobretudo, nos momentos em que o diálogo pedagógico foi intencionalmente destruído.
Nota do Zap Catalão
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