Após escândalo dos descontos indevidos, Governo intensifica estratégia de comunicação para conter crise das fraudes no INSS

Palácio do Planalto corre contra o tempo para localizar vítimas e tenta minimizar desgaste político que já afeta a imagem de Lula

(Foto: Reprodução)

Diante do impacto crescente da crise envolvendo descontos indevidos em aposentadorias e pensões do INSS, o governo federal mobiliza com urgência toda a sua estrutura de comunicação institucional para localizar as vítimas das fraudes e conter o desgaste político que atinge diretamente a imagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O escândalo já é considerado mais danoso que a fake news sobre a taxação do Pix, que prejudicou a popularidade do presidente no início do ano.

A Secretaria Especial de Comunicação Social (Secom) do Palácio do Planalto, sob o comando do marqueteiro Sidônio Palmeira, lidera o esforço emergencial de resposta à crise, enquanto Lula cumpre agenda oficial na China. O presidente retorna ao Brasil nesta quarta-feira (14) e já determinou à sua equipe uma solução imediata para garantir o ressarcimento dos valores retirados indevidamente dos beneficiários do Instituto Nacional do Seguro Social.

Comunicação em várias frentes

A partir desta terça-feira (13), milhões de aposentados e pensionistas começaram a receber notificações via aplicativo Meu INSS, informando a existência de descontos associados não autorizados em seus benefícios. O alerta no celular orienta o usuário a verificar a origem da cobrança e, se necessário, solicitar a devolução dos valores diretamente pelo app, pelo site ou por meio do telefone 135.

Entretanto, diante da baixa adesão digital entre o público-alvo, o governo também avalia o envio de cartas físicas e o uso de atendimento presencial nos Correios para auxiliar os beneficiários na identificação das fraudes. Além disso, o número 153 foi ativado para atendimento complementar.

Gilberto Waller na TV e em novos canais

O governo também escalou o presidente do INSS, Gilberto Waller Júnior, para circular por programas de grande audiência popular. Ele esteve nesta terça-feira no Mais Você, de Ana Maria Braga, na TV Globo, e pode aparecer em outras atrações de grande alcance, como o Programa do Ratinho, no SBT. Além da televisão, está previsto o uso de rádios comunitárias e a Voz do Brasil para ampliar o alcance das informações.

Waller afirmou que, se os canais digitais forem insuficientes, o INSS poderá abrir agências exclusivamente para atender vítimas de fraude. Ele reforçou que os contatos oficiais com os beneficiários serão feitos apenas pelo app Meu INSS, descartando telefonemas ou mensagens de SMS — o que acende um alerta sobre a possibilidade de novos golpes se aproveitando da crise.

CPMI e desgaste político

Apesar dos esforços de contenção, o desgaste político já é palpável. Um levantamento da consultoria Quaest revelou que o escândalo é um dos assuntos mais comentados em grupos de WhatsApp, Telegram e Discord, com picos de atenção em 23 e 29 de abril e em 6 e 7 de maio — este último impulsionado por um vídeo do deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) que viralizou com críticas ao governo.

Enquanto 50% das mensagens analisadas nos grupos monitorados têm tom negativo em relação à gestão Lula, apenas 3% são favoráveis ou defendem as ações do Planalto.

O cenário levou a oposição a protocolar, nesta segunda-feira (12), um pedido de Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) para investigar as fraudes no INSS. O requerimento, articulado pelas parlamentares Damares Alves (Republicanos-DF) e Coronel Fernanda (PL-MT), contou com 259 assinaturas, sendo nenhuma do PT. Entre os signatários estão membros do PSB, partido do vice-presidente Geraldo Alckmin.

Como identificar e reaver valores

Desde esta terça-feira, beneficiários já podem consultar no app Meu INSS o nome da entidade à qual supostamente estão vinculados. Se não reconhecerem a associação, poderão informar a não autorização do desconto e solicitar o reembolso dos valores, pelo próprio aplicativo ou pelo telefone 135, que funciona de segunda a sábado, das 7h às 22h.

O governo promete divulgar, nos próximos dias, um passo a passo detalhado sobre como fazer o pedido de devolução com segurança, sem risco de cair em golpes.

Caminho jurídico ainda em discussão

Enquanto a comunicação avança, a solução jurídica para os ressarcimentos ainda não está definida. O Executivo estuda assumir a chamada responsabilidade objetiva, que permitiria ao governo devolver os valores imediatamente e depois buscar o reembolso junto às associações envolvidas nas fraudes.

A medida, porém, ainda depende de aval jurídico e político. Internamente, o governo reconhece que a credibilidade da gestão Lula pode ser fortemente abalada caso não consiga uma resposta eficaz e rápida à crise — que afeta justamente um dos públicos mais fiéis do presidente: os aposentados.