Carne vai ficar mais barata? Saiba qual será o efeito do fim da cota chinesa

Mesmo com mudanças nas exportações, especialistas não esperam queda significativa nos preços.

Mesmo com mudanças nas exportações, especialistas não esperam queda significativa nos preços/Foto: Canva/Creative Commons

O Brasil já utilizou 98,5% da cota de exportação de carne bovina para a China criada neste ano pelo país asiático. O mecanismo estabelece um limite de 1,1 milhão de toneladas isentas da tarifa de 55% aplicada ao produto brasileiro, com o objetivo de proteger a produção interna chinesa, segundo análise divulgada pela StoneX. A expectativa é de que esse volume se esgote até agosto, considerando o intervalo de cerca de 45 dias entre o embarque da carne e sua chegada ao mercado chinês.

Segundo João Figueiredo, analista da Datagro Pecuária, desde o anúncio da medida pelas autoridades chinesas, em 31 de dezembro de 2025, o setor buscou entender como ocorreria a operacionalização da cota. “Quem regula isso é o GACC, a alfândega chinesa. Houve uma tentativa de racionalizar os embarques para evitar uma corrida pela cota, mas esse entendimento não avançou e o governo optou por não regular o processo”, explica.

Sem uma definição sobre como seria feita a distribuição da cota, as exportações aceleraram. “De janeiro a junho, o Brasil exportou 2,1 milhões de toneladas equivalentes de carcaça, contra 1,8 milhão no mesmo período do ano passado. Isso representa um crescimento de 16,9%. Foi um primeiro semestre muito forte. Cerca de 40% de toda a carne produzida no Brasil foi destinada à exportação, um recorde”.

Outros mercados podem absorver parte do volume

Figueiredo observa que outros países ampliaram as compras de carne bovina brasileira. Os Estados Unidos, por exemplo, adquiriram 183 mil toneladas no primeiro semestre. O Chile elevou as importações de 57 mil para 69 mil toneladas, enquanto a Rússia ampliou os volumes de 36 mil para 51 mil toneladas.

Na União Europeia, as compras passaram de 38 mil para 42 mil toneladas. Já o México reduziu as aquisições de 51 mil para 42,9 mil toneladas após estabelecer uma cota de 70 mil toneladas.

“Esses mercados conseguem absorver parte do volume que deixará de ir para a China, mas não resolvem o problema do preço”

Segundo o analista, a China paga, em média, US$ 6,80 por quilo, enquanto os demais destinos remuneram menos pela carne brasileira. “Como o mundo percebeu que o Brasil perdeu esse comprador premium, os demais compradores passaram a pressionar os preços”.

Na avaliação do economista Felippe Serigati, da FGV Agro, o cenário é semelhante. Segundo ele, outros grandes exportadores, como Estados Unidos e Austrália, ainda enfrentam limitações na oferta por causa da recomposição de seus rebanhos. “No caso dos Estados Unidos, nem está totalmente claro se esse processo de recomposição já começou de forma consistente”, afirma.

Por isso, explica o economista, quando um importador busca grandes volumes de carne bovina no mercado internacional, em muitas situações o Brasil é praticamente o único fornecedor capaz de atender essa demanda. Serigati concorda que parte do volume pode ser direcionada a mercados como Estados Unidos, países do Oriente Médio, Sudeste Asiático, Chile e México. No entanto, ressalta que nenhum deles consegue substituir, isoladamente, a demanda chinesa.

Mas, afinal, a carne vai ficar mais barata?

Para Serigati, uma queda no preço da carne para o consumidor brasileiro é possível, mas pouco provável.

“O fato de a China atingir a cota não significa que o Brasil deixará de exportar carne para o país. Naturalmente, os embarques devem diminuir, mas alguns produtos de maior valor agregado ou cargas que já tenham contratos firmados ainda devem seguir para a China. Esse comércio deve continuar, ainda que em ritmo menor”

Ao mesmo tempo, parte desse volume poderá ser redirecionada para outros mercados. “É verdade que nenhum desses mercados consegue absorver, sozinho, o mesmo volume que iria para a China, mas há uma compensação parcial”, afirma.

O economista também ressalta que haverá um ajuste pelo lado da oferta. Ao longo deste ano, deve ocorrer uma reversão mais clara do ciclo pecuário, com maior retenção de fêmeas. “Ou seja, uma fêmea que iria para o abate e se transformaria em carne passa a ser mantida no rebanho para produzir bezerros. Como ela deixa de ir para o abate, a oferta de carne tende a diminuir, ajudando a equilibrar o mercado”.

Ainda assim, para Serigati, o principal argumento contra uma queda consistente nos preços é o comportamento do mercado futuro. “Quando olhamos os contratos futuros, vemos que as cotações da arroba do boi gordo continuam em trajetória de alta. É verdade que essa alta já foi mais intensa e que a curva vem perdendo força, mas ela ainda é ascendente”.

Segundo o economista, isso indica que o mercado não espera que o boi fique mais barato do que atualmente. “Pode até ficar menos caro do que se imaginava há dois meses, mas isso é diferente de dizer que ficará mais barato”.

“Se o frigorífico continuará comprando o boi por um preço maior, não vejo motivo para acreditar que venderá a carne no mercado interno por um preço inferior ao atual. Para mim, isso não faz sentido”, explica.

Ele ressalta que pode haver algum movimento pontual de acomodação, como uma pequena redução em alguns cortes específicos, mas que isso seria marginal e temporário. “Em resumo, não é impossível que a carne fique mais barata nos próximos meses, mas, na minha avaliação, esse não é o cenário mais provável”, concluiu.

Com informações: Globo Rural