“Mariarte é resistente”: o terno feminino que há 20 anos marca presença nas congadas de Catalão – Por Lucas Machado

O encontro foi liderado com alegria e firmeza pela Capitã Aldanice, figura central na trajetória de resistência e protagonismo feminino dentro da Festa do Rosário.

(Fotos: Lucas Machado – @LucasMachadoOficial)

Neste domingo, estive presente em um momento histórico e carregado de emoção: o ensaio de comemoração pelos 20 anos do Terno de Congo Mariarte, o primeiro terno formado exclusivamente por mulheres em Catalão/GO. O encontro foi liderado com alegria e firmeza pela Capitã Aldanice, figura central na trajetória de resistência e protagonismo feminino dentro da Festa do Rosário.

Catalão tem uma história centenária nas congadas, e as mulheres sempre tiveram um papel ativo na festa, seja na confecção das fardas, nas bandeirinhas, na parte religiosa ou na preparação dos alimentos. Mas até então, nunca haviam tocado ou marchado no mesmo espaço que os homens. O surgimento do Mariarte, em 2005, rompeu esse padrão e abriu novos caminhos.

“Mariarte é resistente, é tambor e mulher. Quando a caixa bate forte, todo mundo fica em pé!” O verso entoado neste domingo, durante o ensaio comemorativo, resume com perfeição o espírito do Terno Mariarte: força, tradição e protagonismo feminino nas congadas de Catalão

Em entrevista, Dona Aldanice relembrou com emoção os primeiros passos do grupo:

“Quando formamos o terno, achamos que seríamos esnobadas pelos homens, esquecidas. Começamos lá no fim da fila, como o último terno. Mas não foi assim. Os capitães nos apoiaram, nos abraçaram, nos trouxeram para frente. Disseram: ‘O terno das mulheres tem que andar na frente’.”

Ela também destacou o apoio do então pároco da Paróquia São Francisco, Padre Orcalino:

“Era a gente quem tirava o andor de Nossa Senhora de dentro da igreja, quem abria a procissão. Com esse apoio, a gente foi conquistando nosso espaço.”

A comemoração contou com a presença de importantes nomes da cultura congo de Catalão: A Rainha das Congadas, Eloah, o Capitão do Terno Marujeiro, Sr. Durval; o Capitão do Catupé Azul, Sr. Divino; o Capitão do Congo Pio Gomes, Sr. Hugo, além de José Mário, Capitão do Terno de Congo de Goiânia. A presença deles reforça o respeito e o reconhecimento que o Mariarte conquistou nesses 20 anos.

Como fotógrafo, acompanho as congadas há anos, e confesso que momentos como esse me tocam de forma especial. Ver a alegria das integrantes do Mariarte, os rostos marcados pela fé e pelo orgulho, a dança ritmada e o som dos tambores comandados por mãos femininas… tudo isso me fez lembrar do quanto a festa é viva, dinâmica e inclusiva. O Mariarte é símbolo de coragem, resistência e transformação.

Essas mulheres pavimentaram um novo caminho, com respeito às tradições, mas sem abrir mão da participação ativa e igualitária. E Catalão é mais rica por isso. Que venham os próximos 20 anos!

Este fim de semana também marcou o início dos ensaios de vários ternos da congada em Catalão, dando os primeiros passos rumo à tradicional Festa do Rosário, que acontece em outubro. Os bairros já começam a ecoar os tambores, caixas e reco-recos, em encontros cheios de fé, ritmo e ancestralidade.